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História das Mouras Encantadas

   O modo por que foi tomado o castelo deu origem a uma das mais belas lendas de mouras encantadas: O governador do caselo de Salir tinha uma filha, que era o seu enlevo. Não havia nos arredores mulher mais gentil. No seu olhar percebia-se a inocência dos anjos.

     Era a formosa moura em extremo afecta às suas crenças e odiava de morte os nazarenos. Todas as noites subia nos muros do castelo e no mais alto elevava ao céu os seus formosos olhos e implorava de Allah as bênções para o seo povo. Conservava-se voltada para o Oriente horas esquecidas em profunda meditação nas memórias sagradas de Meca. Seu pai depositava nela tanta confiança que, muitas vezes, recolhia ao quarto de dormir, deixando nos muros do castelo a sua virtuosa filha.

     Na noite em que o conselho formado pelos sarracenos resolveu desamparar precipitadamente o castelo, mandou o governador avisar sua filha que escondesse à pressa os tesouros na cisterna e que acompanhasse até o Serro da Pena as mulheres mouras, que saíam adiante. Infelizmente, ocupados todos em esconder os seus tesouros, a moura gentil não recebeu o aviso paterna; e enquanto todos saíam dali, na calada da noite, sem fazer o mais pequeno ruído, a filha do governador fazia oração no mais alto muro do castelo. 

    Quando o governador chegou às alturas do Serro da Pena e não encontrou entre as agarenas a sua filha querida, teve a profunda compreensão da sua desgraça: ficara sobre os muros em operação porque não recebera o aviso!

     Correu sobre o Serro da Pena e foi colocar-se no ponto de onde podia ver os muros. Nesse momento subia a lua no horizonte e o velho distinguiu lá ou longe, sobre o castelo, um vulto de mulher: era a filha!

   Chamá-la!, não ouviria. Ir busca-la!, impossíval. Então o que o velho num extremo de dor disse: Antes encantada do que desonrada! E voltando-se para o Oriente, e em seguida para o castelo, ergueu ao céu os olhos, fez com a mão direita uns sinais cabalísticos, traçou com o dedo indicador o signo Samão sobre o vulto da sua filha e entoou uns cânticos místicos e umas palavras incompreensíveis ... até que caíu no chão sem sentidos.

   Já a este tempo ele estava cercado dos seus soldados, que correram a ampará-lo nos braços. Transportaram-no para o algueirão, onde o pobre velho abriu os olhos no centro dos seus fiéis soldados e das formosas filhas de Islam. Então correram-lhe as lágrimas, lastimando-se da sua desgraça!

    Pobre Pai!  Foi a gentil moura chorada por muito tempo não só pelo pai, como pelas suas amigas e muitas vezes o pobre velho exclamava:  -Não chorem, não chorem! Se Allah quiser, em pouco tempo a veremos dentro do castelo e a minha filha será salva.  Daí até hoje tem a pobre moura esperança e se conservará por todos os séculos.

   Em todas as noites aparece a encantada sobre os muros do castelo. Muita gente a tem visto e ouvido lamentar a sua triste sorte. Há ocasiões, quando as noites correm agrestes, e o vento sibila por entre as franças das árvores, produzindo notas musicais e formando cânticos repassados de tristeza horrível, que se nos parece assistir ao desempenho real de uma tristíssima canção.

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